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O desenvolvimento infantil é composto de inúmeras fases. Quando falamos do assunto, existem alguns marcos que ocorrem em determinadas idades. Em alguns casos, isso pode não progredir da forma esperada, provocando consequências, como o atraso de fala.
Esse é o tema da nossa entrevista do mês. Conversamos com João Pedro de Mendonça, pediatra do Eludicar, que vai tirar as dúvidas relacionadas ao assunto.
João Pedro de Mendonça tem 29 anos, é carioca e mora, há 5 anos, em São Paulo.
“Fiz medicina no Rio de Janeiro e pediatria em São Paulo. Me especializei em Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento. Assuntos relacionados ao atraso de fala e às dificuldades do desenvolvimento de fala me tocaram muito durante minha formação”, diz o profissional.
Mendonça explica que o tema chamou sua atenção porque atrasos são percebidos com frequência. “Muitas vezes, a criança tem um transtorno fonoaudiológico de linguagem que pode ser facilmente resolvido. Gosto de abordar o tema nas minhas consultas”.
Fizemos uma série de perguntas sobre atraso de fala a João Pedro de Mendonça. Continue lendo a entrevista e se informe sobre esse assunto.
Quando nos referimos ao desenvolvimento de maneira geral, temos marcos a serem cumpridos em idades-chave. Quando um marco não é atingido, podemos considerar que há um atraso de fala.
Um exemplo disso é uma criança de dois anos que não fala. Nesse caso, é necessário que ela passe por uma avaliação. Em resumo, os atrasos de fala sinalizam a não chegada da criança nos marcos de linguagem típicos para aquela idade.
As crianças são banhadas por linguagem desde o nascimento. O ‘falar’ é a ‘cereja de um bolo’ todo baseado na linguagem. Sorriso, interação e tudo o que usamos para nos comunicar são formas de linguagem.
A fala é o final do processo. Muitas vezes, recebo no consultório famílias que se queixam que as crianças não falam. Inicialmente, preciso saber: o que ela faz? Ela é capaz de apontar? De solicitar o que quer? Fala sílabas ou tenta, num dialeto próprio, se comunicar?
Encontramos, por exemplo, crianças de dois anos com o transtorno do espectro autista que não falam. Mas elas não têm marcos muito primordiais da linguagem não verbal. É fundamental separar isso para entender quando a criança tem intenção comunicativa.
Basicamente, a dificuldade da inserção da criança na fala como marco principal dos dois anos de idade é um sinal de atraso de fala. Nessa idade, a criança já tem capacidade de pronunciar palavras e pequenas frases de duas palavras.
Se ela não atingir esse marco aos dois anos, é recomendável procurar ajuda. Citamos essa idade como marco principal porque é muito importante evitar que a criança seja diagnosticada mais tarde, o que, infelizmente, se dá com frequência.
Minha intenção é trazer o assunto para perto da primeira infância para que possamos intervir o mais rápido possível, se necessário.
Com um ano de idade, a criança está imitando gestos e sons, como dar tchau e bater palma. Essas ações são precursoras da linguagem falada e precisam estar bem estabelecidas para que a criança possa falar.
Os seres humanos são sociáveis e prezam a interação. Por isso, a preocupação ocorre quando o bebê não é interativo e não reage ao ambiente à sua volta.
Mais tarde, entre o primeiro e o segundo ano de vida, vale notar se a criança tem dificuldade de verbalizar ou de falar, ainda que faça trocas na fala. É muito comum que crianças nessa idade troquem a fala, isso faz parte da linguagem habitual. O importante é que ela esteja se esforçando.
A principal preocupação deve ser estabelecer uma comunicação desde cedo com o bebê. Interagir, brincar, conversar, trocar olhares e se preocupar caso essa relação se mostre abalada em algum momento. Essa é a base para gerar linguagem futuramente.
Muitas vezes, a criança começa a falar antes dos dois anos. A partir dos 9 meses, o bebê já passa a balbuciar e simular sons. Quanto mais interativo é o ambiente, melhor será o avanço da comunicação da criança.
Os marcos são separados por idade. Para deixar isso mais claro para as famílias, vou disponibilizar um material que descreve os marcos do desenvolvimento para pessoas leigas, garantindo que todos possam compreender o que elas representam.
É importante citar que esses marcos são muito variáveis. Apegar-se a especificidades pode gerar angústia ou ansiedade desnecessárias nos pais e nos cuidadores. Sugiro que as famílias acompanhem os marcos das crianças e conversem com os pediatras.
Todas as vezes que um marco de linguagem não for atingido, é possível melhorar a qualidade de interação e aguardar um curto intervalo de tempo. Na ausência de melhora, o encaminhamento é necessário.
Em outros casos, quando uma criança apresenta um atraso de fala muito bem estabelecido, o fonoaudiólogo é recomendado.
Em resumo: quando há a suspeita de um atraso de fala, o pediatra pode orientar uma mudança ambiental. Em caso de atrasos definidos, é necessário encaminhar a criança a um especialista para que seja iniciado o tratamento.
A terapia vai depender do diagnóstico. Deve ser levada em conta a bagagem prévia de comunicação e o que o fonoaudiólogo precisa exercitar durante o tratamento.
Esse especialista trabalha diversos pontos para dar base à comunicação. O ideal é que haja uma comunicação entre o fonoaudiólogo e o pediatra.
A resposta de ouro para essa pergunta é o ‘tempo de qualidade’.
Precisamos entender a importância do tempo de qualidade de interação com uma criança que convive com a gente. A escola não é capaz de tudo, mas ela tem um papel social na vida da criança. Já a vida domiciliar tem outro papel.
Os pais podem ajudar separando momentos do dia para interagir e brincar com as crianças, permitindo que ela guie a brincadeira em algumas situações.Além disso, é fundamental incluir a criança na rotina diária, pedindo ajuda em certas ações, muitas vezes pequenas. Exemplo: na hora do banho, pedir que ela dê o bracinho ou o pezinho para lavar. É uma forma de dar chance para que ela evolua sua comunicação.
O ponto principal desse acompanhamento é a identificação precoce de qualquer alteração não esperada a fim de que uma intervenção seja colocada em prática, se necessário.
Além da promoção da saúde, das boas indicações e orientações, as consultas frequentes geralmente evitam complicações futuras, que, quando identificadas precocemente, podem ser resolvidas com mais facilidade.
Sim. Devemos entender que a mudança no ambiente da criança foi a maior alteração. Os pais se viram num ambiente adverso, em uma situação de isolamento, e as crianças privadas de um convívio fora do ambiente domiciliar.
A pandemia causou um aumento do uso de telas entre as crianças. A tela não é interativa, não sendo uma substituição do contato humano.
O ambiente adverso e o crescimento do uso de telas causam, de fato, aumento dos atrasos de fala.
Diferenciar o que é um atraso de fala do autismo é, hoje em dia, um dos pontos principais relacionados ao assunto.
O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento, cujos sintomas específicos surgem ainda nos primeiros dois anos de vida, na grande maioria dos casos.
O diagnóstico utiliza dois critérios: o critério A, que é obrigatório, e o critério B, que é variável, mas precisa estar presente em duas das quatro opções.
O principal ponto para que uma criança seja considerada autista, é que ela tenha dificuldade para a comunicação social. Uma criança que não fala, mas consegue se comunicar de forma plena, olhar nos olhos, reagir durante as interações, por exemplo, provavelmente não está dentro do espectro autista.
Quando há uma deficiência na comunicação social de base, o autismo é uma possibilidade.
Algumas crianças autistas podem trazer formas de linguagem em que, aparentemente, ela está falando bem, mas a mensagem não significa nada para aquele ambiente.
Muitas vezes, as crianças repetem as palavras e não necessariamente entendem que elas sejam algo palpável para aquele ambiente. Um exemplo: repetir a palavra “mamãe” e chamar a mãe de “mamãe” são coisas diferentes.
Por isso, o atraso de falo está tão ligado à possibilidade do espectro autista. Logo na primeira consulta, é necessário entender o perfil do paciente.
Para finalizar, gostaria de ressaltar um ponto que costumo citar durante as consultas com as famílias: a intuição. No final das contas, quem vai pra casa com a criança são os cuidadores.
Gosto de valorizar o que os pais trazem. O que aconselho é que vocês, pais, valorizem a opinião de vocês. Se acreditarem que há algo diferente e alguém desmerecer, tente argumentar, busque ajuda, procure outra opinião.
Toda queixa deve ser ouvida plenamente e levada em consideração. Ela pode ser sanada depois, porém precisa ser justificada. Minha dica é: pais, levem a sério a intuição de vocês.
Contem com a gente nos cuidados dos nossos pequenos!
Clique aqui e saiba mais sobre João Pedro de Mendonça, pediatra do Eludicar.
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